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Câmara Municipal de Sever do Vouga
 
 
 Sever do Vouga: Heráldica do concelho...
Quando, cerca de 1941, se fez o primeiro tentame para o estudo das armas do concelho, face aos elementos que então se julgaram disponíveis, não se dignou a Associação dos Arqueólogos Portugueses emitir qualquer resposta ou mero parecer. Estava-se no início da vigência do novo Código Administrativo e a Câmara Municipal, no uso das suas atribuições de cultura, procurava dar cumprimento ao disposto no nº. 14 de seu artigo 48º.
Dez anos depois, mais concretamente em 5 de Maio de 1951, o então Presidente que se reclamava de associado daquela instituição pública voltou à carga, fornecendo elementos adicionais para o efeito. Só depois o desiderato veio a merecer provimento e, mesmo assim, não falho de algumas vicissitudes no seu transcurso.
Nas buscas que procedemos relacionadas com o estabelecimento dos símbolos heráldicos do concelho encontrámos uma deliberação do executivo tomada em sua reunião do dia 28 de Abril de 1951 e exarada no livro de actas nº. 32, em depósito no arquivo municipal, cujo teor transcrevemos integralmente:

"Heráldica - Por proposta do senhor Presidente, foi deliberado oficiar-se ao Presidente da Comissão de Heráldica da Associação dos Arqueólogos, no sentido de diligenciar que venham a ser aprovados o selo, o estandarte e as armas do concelho, com base nos seguintes velhos elementos, pelo senhor Presidente desta Câmara fornecidos: "Sever do Vouga é terra muito antiga. O nome de "Villa Severi" que se lhe aplica em documentos medievais e a que já se fazem referências em documentos dos séculos IX e X (Portugalia - Mon. Historica - Diploma etc..), basta para nos mostrar que deriva de um antigo senhor da terra - Severo - (mais tarde conde de Sever), de que há reminiscências na tradição oral, como senhor de baraço e cutelo. O concelho, teve armas antigas, que consistiam no seguinte: escudo partido em pala; na primeira pala, em campo azul, um castelo de frente com portas em fundo e duas frestas ou janelas de vermelho e suas ameias de negro; das ameias saem quatro bandeiras de azul e vermelho, com a cruz de Cristo em branco. Na segunda pala, em campo vermelho, cinco folhas de figueira verdes, nervadas e perfiladas de ouro; em chefe, coroa a verde e ouro; orla ou listel branco, com os dizeres: "Vila de Sever do Vouga", a negro. Os dizeres também podem ser em volta do escudo, ou em fundo. Em volta das armas, quaisquer enfeites sem significação. SELO - Circular, tendo ao centro as peças das armas sem indicação dos esmaltes; em volta, dentro dos círculos, os dizeres: "Câmara Municipal de Sever do Vouga". BANDEIRA - Esquartelada, de azul e vermelho; cordões e borlas de ouro e verde, isto é, amarelas e verdes; lança dourada. Mais se deliberou mandar para a Comissão de Heráldica, para estudo, um desenho nas bases acima indicadas, segundo um pergaminho com data de mil quinhentos noventa e dois, do tempo dos Filipes, aprovando as armas do concelho, pergaminho esse que existia numa antiga casa do concelho (João António das Presas), e cujo paradeiro, por falecimento dos detentores, hoje se desconhece. Também um antigo professor do concelho, já falecido, oferecera em mil novecentos e quatro à Câmara uma pedra por ele encontrada, com as armas do concelho precisamente segundo o referido desenho - exemplar que também não se sabe hoje onde se encontra".

Pretendia-se, assim, demonstrar que o concelho já tivera armas antigas conforme a descrição feita na deliberação transcrita, baseada em suposto pergaminho e em brasão esculpido no granito. Aventou-se até a hipótese de, à volta do apresentado, se tecerem os novos símbolos com a possível urgência, dado que «Essa demora deu lugar a que estejamos sem bandeira -, o que nos faz falta, pois é triste não podermos apresentar a nossa bandeira em algumas solenidades oficiais» (sic).

Em 18 de Agosto do mesmo ano o presidente da Câmara insistiu por uma resposta sobre a constituição desses símbolos, lembrando todo o seu empenho numa rápida aprovação.
Pouco tempo depois, precisamente em 5 de Dezembro, chegava a almejada resposta da Comissão de Heráldica e Genealogia da Associação dos Arqueólogos Portugueses, transmitida pela 2ª. Repartição da Direcção-Geral da Administração Política e Civil por intermédio do Governo Civil de Aveiro, elaborada bem ao arrepio das sugestões apresentadas. Dessa comunicação extraímos o seguinte excerto:

«Citam-se no ofício da Câmara Municipal como armas antigas do concelho, das quais se juntou um esboço, as que constavam de uma pedra de armas encontrada por um professor há trinta anos.
Tais armas nunca foram as do concelho, pois são familiares e pertencem a descendentes de João de Figueiredo, cujo apelido representam, e estão encimadas por coronel de conde.
Nesta conformidade e visto os concelhos não poderem ter armas de família, venho solicitar a V. Ex.ª. o favor de o transmitir àquela Câmara, perguntando-lhe se tem algum outro documento heráldico que mereça fé ou se deseja que a Comissão de Heráldica e Genealogia dê o seu parecer mesmo sem elementos particulares por ela fornecidos».

Ao tomar conhecimento do teor de informação transcrito, em reunião de 7 de Dezembro, ficou exarado nessa acta que: "... em face das objecções apresentadas por aquela Associação e transcritas no aludido ofício, pode a mesma proceder directamente ao estudo das armas, selo e bandeira deste concelho, não sem lhe querer lembrar que, talvez em mil novecentos e quarenta, esta Câmara remeteu àquela Associação um estudo acerca do assunto, e que deve lá encontrar-se, podendo, pois, constituir um precioso auxilio para o estudo a realizar".
Na informação que, de seguida, se transmitiu, lembrava-se que o concelho se situava na parte serrana da Beira Litoral, com características acentuadamente agrícolas, sendo terra fértil e com abundância de gado, lacticínios e madeira, havendo ainda a considerar a existência de minas de chumbo. Daí que, em Abril de 1953, o Governo Civil de Aveiro remetesse um parecer emitido pela Comissão de Heráldica e Genealogia sobre a constituição das armas, preparado pelo senhor Marquês de São Paio, assim elaborado:

ARMAS - De prata com uma banda ondeada de azul com três peixes do campo; coroa mural de prata, de quatro torres; listel branco com a legenda "Sever do Vouga".

Ao apreciar o citado parecer não ficou o executivo totalmente satisfeito e fê-lo sentir, sem mais delongas, à referida Comissão. Concordando com as referências feitas à ancestralidade, à abundância de água, gado e peixe no Rio Vouga, vincou sobremaneira a existência do pinheiro e da laranjeira como um privilégio de que o concelho auferia... mas a colocação tão-só de três peixes do campo sem qualquer outra alusão, era muito pouco para um concelho caracteristicamente serrano e de modo algum traduzia a realidade nos seus aspectos essenciais. Sugeriu então que além dos três peixes já figurados se ladeasse a banda com um pinheiro e uma laranjeira, ou uma vaca no momento de ser ordenhada. A isto respondeu a Associação dos Arqueólogos Portugueses em 27 de Junho de 1953, de cuja resposta retirámos o essencial:

"1 - A Comissão de Heráldica e Genealogia não vê inconveniente na introdução no desenho das armas do concelho de Sever do Vouga de duas árvores, ladeando a banda com os peixes;

2 - Essas árvores devem ser dois pinheiros, representativos da maior produção agrícola do concelho;

3 - A vaca proposta para simbolizar a indústria dos lacticínios, é animal pouco usado na Heráldica, de difícil arrumação no escudo e nele se não pode pôr, pois ficará com a banda e as duas árvores já muito sobrecarregado;

4 - Lembra a mencionada Comissão que as armas dos concelhos não podem ter aspecto de tabuletas indicadoras da história de toda a sua produção, por não ser esse o carácter da Heráldica, mas, apenas, o de distintivo;

5 - Ao indicar os dois pinheiros a ladearem a banda, a Comissão harmonizou o desejo da pretendente com as normas heráldicas e com a estética, que se não pode desprezar;

6 - Em último caso, mas com aspecto menos agradável, um dos pinheiros pode ser substituído por uma laranjeira, no que se não vê vantagem por não ser a produção principal do concelho, além de que, secundariamente, outras haverá,».

Em face do transcrito, optou-se pela colocação na banda do pinheiro e da laranjeira, ladeando os três peixes, símbolos que melhor traduziam as fontes de receita, em detrimento da vaca representativa da indústria de lacticínios; pelo que o anterior parecer sugerido pela Comissão de Heráldica e Genealogia, aprovado pela Associação dos Arqueólogos Portugueses em sua reunião de 7 de Julho de 1952, foi alterado e definitivamente ratificado em 22 de Junho de 1953. Daqui resultou a publicação no Diário do Governo, II Série, nº. 283, de 4 de Dezembro de 1953, da Portaria de 27 de Novembro, emanada do Ministério do Interior, sobre a constituição heráldica das armas, selo e bandeira do concelho, nos termos seguintes:

ARMAS - De prata, com a banda ondeada de azul, com três peixes do campo, entre um pinheiro e uma laranjeira, ambos de verde, com troncos e raízes de negro, e furtados de ouro. Coroa mural de prata, de quatro torres. Listel branco com a legenda "Sever do Vouga".

SELO - Circular, tendo ao centro as peças das armas, sem indicação dos esmaltes; em volta, dentro de círculos concêntricos, os dizeres: "Câmara Municipal de Sever do Vouga".

BANDEIRA - De azul, com as armas no centro; cordões e borlas de prata e azul. Haste e lança douradas.

In "Sever do Vouga - Uma Viagem no Tempo" - Fernando Soares Ramos 

 
 
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