Sever parece derivar de Sevéri, irmão de Teodorico II dos Visigodos, que aqui se teria
fixado, apropriando-se de vastos domínios por volta do ano 510 e dando o nome às Terrae
Severi (Terras de Sever).
No sítio da Igreja Matriz, teriam existido dois mosteiros, da invocação de S.to André e S.
Cristovão. Teve Sever do Vouga foral novo concedido pelo rei D. Manuel I, em 29 de Abril de
1514.
O Solar do Paço da Vala, na Senhorinha, de boa traça arquitectónica, terá sido berço dos
"Condes de Sever, Duques de Guterre, Condes das Terras de Santa Maria e Barões de
Sever", segundo uma lápide nele existente.
É sua Padroeira Stª Maria. A história de Sever do Vouga está documentada desde os séc.
IX-X, sendo a que mais elementos fornece sobre a permanência das populações cristãs debaixo
do jugo muçulmano.
Teve então um mosteiro moçarabe na vila, o qual, posteriormente surge dependente do de Vacariça.
Tudo leva a crer que o mosteiro de Sever teria sido fundado antes de 897 por D. Gondesindo (ou Gosendo) Eres
e sua mulher D. Enderquina.
Mais tarde, à roda de 950, seu filho D. Soeiro Gondesindes e sua mulher D. Goldrogodo, que de seu pai
herdara a terra de Sever, doaram-na com o mosteiro ao abade Jacob para nele viver monasticamente, segundo
a regra beneditina.
Falecido o abade Jacob, sem herdeiros, os bens da aldeia de Sever e Mosteiro foram restituídos aos filhos dos
doadores, Sandino Soares e Gondesindo Soares. Em 964, estes doaram a dois irmãos, o diácono Sandino e o presbitero
Gudesteu, e respectivos frades que o habitavam, a que se juntou algumas terras nas proximidades de Cedrim.
Alexandre Herculano baseado num documento de 1019, escreveu: «Faleceu o presbítero, a tempo que eram já falecidos
também os segundos doadores (que eram D. Soeiro Sandines e D. Fernando Sandines, filhos de D. Sandino Soares e de
D. Ximena), ficando só, no mosteiro, Sandino, o diácono». Por essa altura, deu-se então nova e terrível incursão
de Almançor «et tunc surrexerunt in ipsis tempororibus fillii perditiones gens ismaelitarum et prenderunt ipsa
terram in qua erat illum monasterium ipsam et aliam de Dorio usque in Corduba». Ocorreu então, como refere o texto
transcrito, surgirem os esmaelitas, filhos da perdição e apoderaram-se daquele território e do mais desde o Douro até Córdova.
Sandino, o pobre diácono, ligou-se ao conde Froila Gonçalves, de certo modo um renegado e desertor, filho do conde
Gonçalo Moniz, governador de Montemor em consequência da sua sujeição a Almansor. Seguindo-o, e apesar da existência dos
filhos dos doadores e padroeiros, vendeu-lhe o mosteiro de Sever com as suas casarias, pomares, soutos, terras lavradas e moinhos,
por escritura de venda datada de 13 de Dezembro de 1005, que recebera com seu irmão o presbítero Gudesteu, venda que foi
confirmada pelo abade Andérias do mosteiro da Vacariça, que Froila também protegia dos árabes.
A situação mudou. Froila, mandante em Sever, governou de Montemor até 1015 ou 1016, altura em que foi batido pelas
tropas de D. Afonso V de Leão, sob o comando do conde cristão D. Mendo Luci ou Lucides.
Prevendo tal situação, encarregou sua prima D. Toda Velaiz, mulher de D. Ermenegildo e mãe da condessa D. Elduara, da
transferência dos seus bens para o mosteiro da Vacariça.
D. Toda Velaiz honra o compromisso com Froila e por escritura de 1018 transfere para o mosteiro da Vacariça os bens que
seu primo então possuía, desde o monte Zebrario ao Vouga, entre os quais se contava Sever com o mosteiro e suas pertenças
e rendas, incluindo uma herdade em Nespereira, que houvera de um certo Eita Toderedez, bem como a quarta parte da «villa
spinitello» (Espindelo), ao sul do Vouga - precisamente a quarta parte doada por D. Sandino Soares e D. Gondesindo Soares ao
mosteiro, nos meados do século X.
Nessa época sopravam já os ventos da mudança no território, que pouco tempo depois ditaram o domínio absoluto do estandarte
cristão sobre o crescente africano.
Os filhos do conde Fernando Soares, Nuno Fernandes e Sandino Fernandes, netos do ilustre prócer D. Soeiro Gondesindes, não se
conformaram com a doação dos bens que Froila possuía em Sever a favor da Vacariça. Invocando os legítimos direitos de únicos
senhores do mosteiro e seus haveres, alegaram a nulidade da doação feita pelo diácono Sandino a Froila, direitos que lhes foram
reconhecidos, sendo-lhes restituídos todos os documentos referentes à posse desses bens.
São eles próprios, senhores de Sever, que de tudo fazem nova doação ao mosteiro da Vacariça na pessoa do abade Tudeíldo, como é
referido em escritura de 4 de Dezembro de 1019.
Diz o documento: - que Alexandre Herculano traduziu assim: «Agora teve Deus misericórdia e restitui esta terra ao poder dos cristãos
e governando em Montemor Froila Gonçalves, Deus não quis tolerar este estado de coisas e Mendo Lucides subjugou-o e expropriou-o daquele
mosteiro e desta cidade e de toda esta terra e tomou-lhe tudo o que adquirira e apoderou-se de todos os documentos relativos ao mosteiro».
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Um documento de 1023 refere uma delimitação de terras vendidas por um Citelo Iben Alazate e sua mulher Ermegodo
ao Abade Tudeildo da Vacariça, por trezentos soldos de prata, bens herdados de seus parentes Manualdo e Sesilde,
os quais dividiam pelos termos de Silva Escura, Paçô e Nogueira «et per terminnos antiquos» (alguns por ventura
ainda persistentes da antiga «villa» romana Severi).
Ainda noutro documento de venda do mesmo Citelo a Gonçalo Galindiz e sua mulher, do mesmo ano, bens que lhe
pertenciam por herança e compra situados «in villa severi...», também se diz a propósito da sua localização:
«...et determinat cum monasterio severi et alias pars cum Silva scura et alias pars de santo Martino...».
O mosteiro de Sever acabou quando foi doado o mosteiro da Vacariça à Sé de Coimbra, em 1094, não havendo desde então
qualquer outra notícia dele.
Menos de meio século depois da extinção do mosteiro de Sever (1094), mais concretamente em 1135, nova instituição monástica
nascia em Sever, obra do abade João Cirita que o era também do mosteiro de S. João de Tarouca, da ordem beneditina e mais tarde de Cister.
Haviam decorridos apenas seis anos da fundação do mosteiro de S. Tiago de Sever quando o abade Todereu, com a autorização do
bispo D. Bernaldo fez a sua doação ao mosteiro de S. João de Tarouca e, simultaneamnete a sua filiação, como refere o documento
datado de Julho de 1141.
Quatro meses depois, 11 de Novembro de 1141, Afonso Henriques coutou o mosteiro de S. Tiago de Sever, em cujo documento serviu de
notário Petrus prior, presumivelmente o prior desse mosteiro, Pedro Miguéis, que no documento que a seguir transcrevemos figura como
o agraciado nesse coutamento.
São testemunhas Egas Moniz, mordomo-mor nessa data, Fernando Peres que fora alferes-mor e que substituiu Egas Moniz após a sua morte,
Lourenço Viegas, Gonçalo de Sousa e Fernando Mendes, todos conhecidos por terem firmado outros documentos da chancelaria, Álvaro Rabaldes
(que parece ter sido de Lourizela e veio a ser frade do mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra), e Afonso Pais, nome que figura
noutros documentos. A confirmação do documento deste coutamento é feita pelo bispo Bernardo e pelo arquidiácono Martinho.
A 10 de Janeiro de 1164, da Era de Cristo, faleceu o Abade João Cirita. Cirita não é patronímico, mas sim título que lhe adveio da sua
vida solitária durante muitos anos, ao contrário de outros eremitas que viviam em mosteiros ou ermidas.
O sepulcro que guarda os restos do venerável Abade, em S. Cristovão de Lafões, tem o seguinte epitáfio: «Joannes Abbas Cirit...
Obiit X Kal. Januarij E. MCCII».
No ano de 1180, da questão de Rocas com a intervenção do rei, resultou a atribuição de seis casais ao mosteiro de S. Tiago de Sever e
aos «heredes», não sabemos em que proporção, mas provavelmente em partes iguais, dado que nas inquirições de 1258 (1220) se refere que o
mosteiro ou «heremitágio» tinha metade dos frutos de seis casais, além de um casal no Espinheiro e outro em Paradela.
Referem as Inquirições de 1258 (1220), em face dos depoimentos prestados pelos jurados, que eram «homens bons velhos», haver em Sever
três coutos: O de Legiôo (Irijó), o de S. Fins e o da Hermida, tão antigos que ninguém sabia por quem tinham sido instituídos.
Em 1340 o mosteiro de S. Tiago de Sever ainda existia, disso temos conhecimento pela sentença proferida pelo Rei D. Afonso IV, contra o
mosteiro de Tarouca, a propósito do couto de S. Tiago da Ermida. O couto da Hermida é aquele que D. Afonso Henriques fez a favor do mosteiro,
quatro meses depois sob a tutela do mosteiro de Tarouca por força da sua filiação e sobre o qual o abade exercia jusridição ao tempo de
D. Afonso IV, tendo como procurador o prior da ermida, frei João Martins, e da qual viria a resultar uma questão que o rei resolveria a
seu favor.
D. Manuel concedeu foral à vila de Sever em 29.04.1514.
A antiga freguesia era abadia de apresentação da Mitra(segundo outros, da apresentação
alternada da Stª Sé e da Mitra; alternada da Coroa e da Mitra, segundo a Estatística
Parochial, de 1862).
Bibliografia: Sever do Vouga - Uma Viagem no Tempo, Fernando Soares Ramos, 1998; Diccionário Geográfico; Corog. Port.; Portugal Antigo e Moderno; Albino Costa,
Cedrim [...], Cx., 1915; Dicc. Chorog.; Herculano, História de Portugal, III, ppp.348-352.
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