No concelho de Sever do Vouga encontramos, a cada passo, o presente interligado
ao passado. A testemunhá-lo lá estão postados em cada encruzilhada ou ermo,
ponte isolada ou limite de povoação, pequenos oratórios de pedra destinados
a albergar painéis representando as almas no Purgatório. A este conjunto,
oratório e respectivo painel, atribui-se popularmente o nome de alminhas.
Abrigadas em minúsculas capelinhas, incrustadas em paredes de casas e muros,
ou em pequenas e simples pedras rectangulares, as alminhas surgem onde é possível,
e ali se quedam, sempre na esperança de alguém lhes rezar uma avé-Maria ou
um padre-nosso. Estas vão lembrando aos viandantes aqueles que já partiram
desta vida, ao mesmo tempo que os recordam da obrigatoriedade de sufragar
pelas almas, essas infelizes que vagueiam sem eira nem beira, expiando seus
pecados no Purgatório.
O seu elemento principal é o painel de retábulo, pintado
sobre madeira, estuque, tela, folha metálica ou azulejo, representando os
condenados a arder nas labaredas do Purgatório. Este retábulo pode-se encontrar
afixado numa parede ou embutido num muro, mas geralmente está dentro de um
oratório de pedra, encimado por cruz esculpida, pintada ou saliente, e resguardado
por gradeamento de ferro. Logo abaixo do retábulo situa-se o orifício da caixa
de esmolas o peto - cujas receitas revertem em prol da conservação do monumento
e de missas pelas almas.
O Purgatório é representado pela fogueira, de chamas ardentes rubras, no seio
das quais os condenados purificam as suas almas. De corpos desnudos, encobertos
de labaredas até à cintura e braços erguidos em prece, imploram a misericórdia
divina e anseiam que os anjos que sobrevoam o local, os arranquem daquele
suplício e conduzam as suas almas já purificadas para a bem-aventurança.
No céu, um certo número de figuras celestes intercede junto de Cristo para
a libertação dos condenados. Entre eles figuram, para além dos anjos, a Santíssima
Trindade, a Virgem do Carmo, Santo António, S. Francisco e S. Miguel com uma
balança, pesando as almas e deixando passar as que já pagaram a sua pena.
Entre os condenados podem assinalar-se a presença de frades, reis e bispos,
numa maneira irónica de "creditar" a igualdade de todos perante Deus.
Legendas piedosas acompanham as alminhas, solicitando aos
caminhantes uma oração pelos que crepitam nas labaredas do Purgatório: "Ó
vós que ides passando / Lembrai-vos de nós que estamos penando / P.N.A.M.";
"Pelas almas do Purgatório / Padre Nosso / Avé Maria"; "Nós penamos e vós
zombareis / Mas lembrai-vos que em breve como nós sereis".
A origem das alminhas esteve durante muito tempo, submetida à descendência
directa dos altares romanos dedicados aos Lares Viales e aos Lares Compitales,
erguidos junto dos caminhos e nas encruzilhadas. No entanto esta ideia foi
já abandonada, para o que muito contribuiu a tese de Flávio Gonçalves sobre
"Os painéis do Purgatório e as origens das Alminhas Portuguesas".
De facto, as intenções religiosas diferem umas das outras: dos deuses Lares,
venerados divinamente, espera-se a protecção agrícola das searas e culturas
e a protecção dos viandantes expostos aos perigos e agruras dos caminhos;
quanto às alminhas, estas limitam-se a pedir mudamente uma oração pelas almas.
O cristianismo, ao separar o divino do humano, não atribui às alminhas um
papel celeste - elas polvilham os caminhos como forma de nos recordar a obrigatoriedade
de sufragar aqueles que desta vida já se foram, auxiliando as suas almas a
libertarem-se do Purgatório e a ascender a Deus.
Por outro lado, entre o aparecimento das nossas alminhas
e os altares romanos vão mais de mil anos! As alminhas só vão surgir e proliferar
quando o movimento da Contra-Reforma, em pleno século XVI, revitaliza o culto
das almas do Purgatório e sensibiliza os artistas para a sua representação
simbólica. Até aqui, praticamente só se orava pelas almas dos defuntos, costume
que o II Concilio de Lião (1274) e o Concilio de Florença (1439) incentivaram.
Ao mesmo tempo que nas igrejas as representações do Purgatório se tornam nota
vulgar da iconografia religiosa portuguesa, a partir de finais do século XVI
e princípios do seguinte, pinturas semelhantes aparecem ao ar livre. Este
costume deu origem à arte popular das alminhas que ainda hoje dissemina o
território português, com principal incidência nas regiões acima do Mondego.
Inicialmente a sua implantação andou associada aos cruzeiros, pela invocação
cristã que ambos assumem, mas também não lhe terá sido indiferente o misticismo
que envolve as encruzilhadas, popularmente consideradas como local de reunião
de entes sobrenaturais.
Estes humildes monumentos de fé, são um dos traços mais característicos da
religiosidade portuguesa. Infelizmente muitos deles desapareceram vítimas
dos estragos irreparáveis do tempo, da incessante busca de novas áreas de
cultivo, da abertura de estradas e caminhos e da crescente expansão dos centros
rurais e urbanos.
Estas perdas são lamentáveis e é contra elas que nos insurgimos.
A protecção do património cultural impõe-se cada vez mais pois ao defendê-lo
contribuímos para a preservação da "alma" e do sentir do nosso povo ao longo
das épocas. Cabe, pois, a cada um de nós acarinhar, proteger e divulgar essas
manifestações culturais, traduzidas neste caso na preservação e divulgação
dos pequenos monumentos aos quais damos o nome de Alminhas.
Ma Carlos Chieira Pêgo
Ma Manuel Chieira Pêgo